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Impossível discordar dele: ele era o único certo

Anônima
16 de abr. de 2021
1 min de leitura

Algumas maneiras pelas quais somos criadas passam a fazer parte tão profunda da nossa personalidade, que é muito difícil mudar nosso comportamento e pensamentos. Fui criada por um pai semi-ausente. A maior parte do tempo ele não estava em casa, passava meses sem vê-lo e, já na adolescência, praticamente o ano todo. Mas quando aparecia, era para falar. Falar de como ele via a vida (que o perseguia), como via minha mãe (uma vagabunda preguiçosa e ladra), minha avó e tia (nem uma presta), como eu deveria me comportar (ouvir, ouvir, ouvir) e o que eu deveria pensar (exatamente o que ele pensava). Impossível discordar dele, ele era o único certo, o único ético, o único trabalhador. Depois do monólogo, sumia. Não estava em datas comemorativas, nem em dias comuns. Cresci calada; sou ainda calada, embora adulta. Amiga muda, já me disseram (entre várias outras descrições). Fato é que, adulta que sou, tenho medo de dizer o que penso, tenho medo de pessoas e do que podem pensar. Nos meus piores momentos, nem sei o que penso ou o que sei, mas sinto que sou um lixo. Tudo isso porque meu pai não queria ser criticado, porque queria ser idolatrado. Mesmo vendo essas e outras raízes para esse problema, a luta contra isso é sufocante e a cada segundo.

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