Sobre a minha mãe...

No cansaço de ser mãe solo, ela era estressada, impaciente, com pitadas de narcisismo...
Anos atrás, quando estava no doutorado (que já não é fácil), minha mãe ficou acamada em virtude de um problema grave de saúde. Ela ficou com muitas sequelas, saiu do hospital igual um bebê, porém bem grande. A vida ficou caótica. Ficou difícil fisicamente, emocionalmente, espiritualmente, difícil internamente, e no entorno. Ela melhorou bastante, mas ainda dependente. É muito "cuidar" para as coisas funcionarem: tem o cuidar de alguém mais pesado que você e com muitas limitações, tem as coisas para a pessoa (fralda, medicamento, e muitos eteceteras), tem a limpeza da casa, as compras, as refeições, cuidar das muitas roupas... com tantas coisas o filho, o marido, o doutorado, foram ficando com menos atenção, a profissão ficou fracionada a pequenos contratos que permitam home office. É um malabares de tarefas com muitos itens e em velocidade complicada de manter. O "eu" só vejo um pouco quando trabalho (na maioria das vezes, estou no final das minhas próprias listas, mesmo para as coisas básicas, como cortar o cabelo). Virei ausências! Ausência nos lugares, para as pessoas, para mim. Toda ausência tem uma cobrança e um custo. Tenho, cada vez mais, achado tudo muito pesado, penso que a idade já bateu, me sinto muuito cansada (sinto que não posso dizer isso, mas sim, estou muito cansada, cansada de 'ter que' dar conta de tantas coisas, mesmo com todo o esforço e horas de fazer/realizar, ver que não é o suficiente, é só o possível. São anos de muita intensidade, sinto culpa em dizer: estou muito cansada.
É um caos de tantos pensamentos, de uma parte deles nasceram alguns poemas:
Quando ela se for...
sentirei
tristeza, saudade, respiro, culpa, medo.
sentirei - eu sei,
já antevejo.
Tantos sentimentos misturados
ao olhar o dia que virá.
Tristeza que já se antecede
ainda que escrita em todos os seres.
O dizer "até", o dizer "adeus"…
O dia, é certo, virá.
Pesar que me habita desde a infância,
quando, no desespero do pensar,
clamava ao Supremo:
"Primeiro eu, primeiro eu,
não quero ser só, estar só."
Mas agora, sou eu quem fica.
Sou eu quem vela.
Quem segura o tempo entre os dedos,
enquanto ele escapa
pelos olhos melancólicos, pela pele fina
Quando ela se for,
sentirei.
Como dizer "até", dizer "adeus"
a quem por mais tempo amei,
a quem por mais tempo me amou,
ainda que não o soubesse dizer?
Mesmo em seus arroubos
narcísicos, aflitos, desesperados -
e ao mesmo tempo, dedicados.
É confuso, eu sei,
mas com o tempo aprende-se
a enxergar o amor nos detalhes.
E eu os vi,
em tantos momentos e gestos.
ao tornar-se a Deus,
respiro
a ausência pesa, pesará -
tanto quanto os grilhões invisíveis
que apertam o pulso
aos arcos adornados da gaiola aberta,
construída e revestida, dia a dia,
de prazer, de dever, de dor, de silêncios
e misturas de pensamentos,
dela vejo o mundo,
mas poucos, muito pouco, me veem.
Culpa de querer expandir os quereres,
os horizontes, os céus,
as possibilidades,
até dos sentidos,
e dos sentimentos misturados.
Mas resigna-me o permanecer até o fim,
não importa o medo, o cansaço,
a dor e sentidos - sempre ocultados.
Mas será que pássaros engaiolados,
ao serem soltos, ainda sabem voar?
Temem o novo, sem porto, sem ninho?
Saberão viver sem grilhões,
abraçar os céus e os ventos,
ou, perdidos, voltarão aos arcos
já não adornados,
incompletos para sempre?
Quando ela se for...
Sentirei - eu sei.

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