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Sobre a minha mãe...

Foto do escritor: Escreve, Mulher
Escreve, Mulher
9 de set.
3 min de leitura


No cansaço de ser mãe solo, ela era estressada, impaciente, com pitadas de narcisismo...


Anos atrás, quando estava no doutorado (que já não é fácil), minha mãe ficou acamada em virtude de um problema grave de saúde. Ela ficou com muitas sequelas, saiu do hospital igual um bebê, porém bem grande. A vida ficou caótica. Ficou difícil fisicamente, emocionalmente, espiritualmente, difícil internamente, e no entorno. Ela melhorou bastante, mas ainda dependente. É muito "cuidar" para as coisas funcionarem: tem o cuidar de alguém mais pesado que você e com muitas limitações, tem as coisas para a pessoa (fralda, medicamento, e muitos eteceteras), tem a limpeza da casa, as compras, as refeições, cuidar das muitas roupas... com tantas coisas o filho, o marido, o doutorado, foram ficando com menos atenção, a profissão ficou fracionada a pequenos contratos que permitam home office. É um malabares de tarefas com muitos itens e em velocidade complicada de manter. O "eu" só vejo um pouco quando trabalho (na maioria das vezes, estou no final das minhas próprias listas, mesmo para as coisas básicas, como cortar o cabelo). Virei ausências! Ausência nos lugares, para as pessoas, para mim. Toda ausência tem uma cobrança e um custo. Tenho, cada vez mais, achado tudo muito pesado, penso que a idade já bateu, me sinto muuito cansada (sinto que não posso dizer isso, mas sim, estou muito cansada, cansada de 'ter que' dar conta de tantas coisas, mesmo com todo o esforço e horas de fazer/realizar, ver que não é o suficiente, é só o possível. São anos de muita intensidade, sinto culpa em dizer: estou muito cansada.


É um caos de tantos pensamentos, de uma parte deles nasceram alguns poemas:




Quando ela se for...


sentirei


tristeza, saudade, respiro, culpa, medo.


sentirei - eu sei,


já antevejo.



Tantos sentimentos misturados


ao olhar o dia que virá.


Tristeza que já se antecede


ainda que escrita em todos os seres.


O dizer "até", o dizer "adeus"…


O dia, é certo, virá.



Pesar que me habita desde a infância,


quando, no desespero do pensar,


clamava ao Supremo:


"Primeiro eu, primeiro eu,


não quero ser só, estar só."



Mas agora, sou eu quem fica.


Sou eu quem vela.


Quem segura o tempo entre os dedos,


enquanto ele escapa


pelos olhos melancólicos, pela pele fina



Quando ela se for,


sentirei.


Como dizer "até", dizer "adeus"


a quem por mais tempo amei,


a quem por mais tempo me amou,


ainda que não o soubesse dizer?



Mesmo em seus arroubos


narcísicos, aflitos, desesperados -


e ao mesmo tempo, dedicados.


É confuso, eu sei,


mas com o tempo aprende-se


a enxergar o amor nos detalhes.


E eu os vi,


em tantos momentos e gestos.



ao tornar-se a Deus,


respiro


a ausência pesa, pesará -


tanto quanto os grilhões invisíveis


que apertam o pulso


aos arcos adornados da gaiola aberta,


construída e revestida, dia a dia,


de prazer, de dever, de dor, de silêncios


e misturas de pensamentos,


dela vejo o mundo,


mas poucos, muito pouco, me veem.



Culpa de querer expandir os quereres,


os horizontes, os céus,


as possibilidades,


até dos sentidos,


e dos sentimentos misturados.


Mas resigna-me o permanecer até o fim,


não importa o medo, o cansaço,


a dor e sentidos - sempre ocultados.



Mas será que pássaros engaiolados,


ao serem soltos, ainda sabem voar?


Temem o novo, sem porto, sem ninho?


Saberão viver sem grilhões,


abraçar os céus e os ventos,


ou, perdidos, voltarão aos arcos


já não adornados,


incompletos para sempre?



Quando ela se for...


Sentirei - eu sei.  

 
 
 

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